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	<title>Papo de Gordo &#187; Purê de Letrinhas</title>
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		<title>Papo de Gordo &#187; Purê de Letrinhas</title>
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		<title>Uzzi</title>
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		<pubDate>Sat, 20 Feb 2010 17:00:43 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Conrad Pichler</dc:creator>
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		<description><![CDATA[- Isso não é nome de arma&#8230; daquelas de filmes de traficantes e tal? Uma conversa começada com essa pergunta não parece ter muito futuro, mas essa em particular deu origem a um bom almoço na companhia de um amigo. Bastou sugerir degustarmos um uzzi, no Restaurante Halim, no Paraíso (bairro de S. Paulo). - [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img class="aligncenter size-full wp-image-3455" title="Purê de Letrinhas, por Conrad Pichler" src="http://www.papodegordo.com.br/wp-content/uploads/puredeletrinhas.jpg" alt="Purê de Letrinhas, por Conrad Pichler" /></p>
<p>- Isso não é nome de arma&#8230; daquelas de filmes de traficantes e tal?</p>
<p>Uma conversa começada com essa pergunta não parece ter muito futuro, mas essa em particular deu origem a um bom almoço na companhia de um amigo. Bastou sugerir degustarmos um <em>uzzi</em>, no <strong>Restaurante Halim</strong>, no Paraíso (bairro de S. Paulo).</p>
<p>- Arma? Não&#8230; bom&#8230; vai ver é, também&#8230; mas, estou falando de um salgado árabe, do tipo com massa folhada, recheio de arroz e carneiro com aquela amêndoa moída&#8230;<br />
- <em>Arroz marroquino</em>?<br />
- Isso.</p>
<p>Eu não sou do tipo de gente que lembra muito de nomes (para não falar em datas e outras coisas simples de se decorar), por isso não fazia idéia de que o tal do <em>uzzi</em> era na verdade recheado com uma forma de <em>arroz marroquino</em>. Quem nunca foi a um restaurante árabe de verdade não deve ter comido esse acompanhamento que na verdade é bem comum, serve-se com muitos pratos como os charutinhos de uva ou outra erva ou mesmo costelas de cordeiro assado – ah, vale a ressalva que restaurante <em>fast food</em> de comida “tipicamente árabe” não conta.</p>
<p>- É esse arroz, molhadinho, mas o charme todo é que ele é assado dentro da massa folhada que fica crocante&#8230;<br />
- Cara, eu corto um braço se isso for comida típica&#8230; e não é “comida árabe”, é “sírio-libanesa”, cara pálida&#8230;<br />
- Bom, você é o descendente de <strong>árabe</strong>, eu tenho meia dúzia de alemães e lituanos e só&#8230;</p>
<p>Claro, ele não gostou muito da minha ironia, mas fico imaginando o que esse meu amigo cortaria fora se fosse comer um <em>kibe</em> que fosse no tal do <em>fast food</em> “tipicamente árabe”.</p>
<p>Para falar a verdade, sair para comer com um amigo descendente de qualquer cozinha especializada do mundo é sempre difícil, tem gente que não aceita uma mudança nas receitas&#8230; por outro lado, alguns fazem questão de destratar a cultura das suas raízes ou da sua família por serem “ortodoxas” demais; mas quanto a isso, só terapia <em>à lá</em> <a href="http://adao.blog.uol.com.br/" target="_blank">Adão Iturrusgarai</a> para resolver. Esse meu amigo pareceu ser sempre da primeira estirpe, mas ainda assim precisa de uma terapia como a segunda. Haja vista que a frase mais repetida naquele dia foi:</p>
<p>- Uzzi, pra mim, é aquela metralhadora e&#8230;</p>
<p>Mas, ainda assim, tive sorte de que por mais radical que ele fosse, estava disposto a experimentar a tal novidade, que para mim era “típica”. Assim, ele conheceria algo novo e ainda que não fosse “original”, degustaria algo muito bom e poderia acrescentar uma nova iguaria na sua lista de favoritas.</p>
<p>- Bom, a gente vai lá e você me diz o que acha, certo?<br />
- Beleza&#8230; mas corto um braço&#8230;</p>
<p>Ao chegar ao balcão do restaurante, um dos rapazinhos atarantados que servem por lá, perguntou o que queríamos e – talvez ele já me conheça ou tenha refletido sobre o tamanho da minha barriga:</p>
<p>- Cê vai de <em>uzzi</em>, né senhô?<br />
- Isso, dois&#8230; e aquela pimentinha, por favor.</p>
<p>Não queria dar a impressão que ia comer dois bolinhos que tem quase a dimensão de uma manga média:</p>
<p>- Um pro meu amigo experimentar&#8230;<br />
- Taí, senhô&#8230;</p>
<p>Ao colocar o bolinho diante do meu amigo, ele analisou tridimensionalmente o objeto e concluiu:</p>
<p>- Nunca vi isso!<br />
- Mas de certo não é uma submetralhadora ou algo que o valha&#8230;</p>
<p>Enquanto às mordidas e às olhadelas, no recheio do salgado e investigações da textura da massa folhada, o mesmo balconista explicou que aquela era uma receita de família dos donos do restaurante, só ali se vendia, só existia no Halim.</p>
<p>- Satisfeito? É típico, mas não é típico de todo mundo&#8230;<br />
- Pelo menos não vou ter que cortar meu braço&#8230; isso aqui é muito bom!<br />
- Ótimo, então mete a mão na carteira e paga o meu, estou sem grana&#8230;</p>
<p><em>Visite o Restaurante Halim, R. Dr. Rafael de Barros, 56 &#8211; Paraíso &#8211; São Paulo &#8211; SP<br />
Tel: (11) 3884-8502</em></p>
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		<title>Hashi Runners</title>
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		<pubDate>Sat, 09 Jan 2010 17:00:43 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Conrad Pichler</dc:creator>
				<category><![CDATA[Purê de Letrinhas]]></category>
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		<category><![CDATA[Banri Kathian]]></category>
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			<content:encoded><![CDATA[<p><img class="aligncenter size-full wp-image-3455" title="Purê de Letrinhas, por Conrad Pichler" src="http://www.papodegordo.com.br/wp-content/uploads/puredeletrinhas.jpg" alt="Purê de Letrinhas, por Conrad Pichler" /></p>
<p>Um dia chuvoso. Anoitecer. Um bairro cheio de cartazes preenchidos com ideogramas, lanternas e luminosos japoneses. Se estivesse mais frio, algum vapor seria visto saindo das chaminés, das janelas, dos bueiros e debaixo das passarelas. As pessoas, essas estranhas pessoas, estão vestidas com suas roupas coloridas e seus guarda-chuvas pretos e transparentes, de plástico. Os rostos orientais, as camisas de times locais, as lojas abertas, as portas fechadas, o templo cercado de um jardim especial, milimetricamente podado, as carpas, o caminho de pedra e o umbral vermelho.</p>
<p>Num instante, do meio da multidão que se abre espontaneamente ou levemente empurrada, duas figuras surgem: <a href="http://www.twitter.com/lucioluiz" target="_blank">Lucio Luiz</a> e <a href="http://www.twitter.com/Conrad_Pichler" target="_blank">Conrad Pichler</a>. E todo o clima de <em>Blade Runner</em> se desfaz. Lucio veste sua eterna bermuda e sandálias; Conrad, a calça jeans e camiseta surrada. A tarde de domingo volta a seu início, retoma sua cor original, as famílias caminhando, os vendedores de rua, os mercantes da feirinha tradicional do bairro. A invasão do <strong>Papo de Gordo</strong> não seria sentida se os dois não tivessem de abrir espaço por entre as pessoas. E também pelo prejuízo causado ao rodízio do <strong>Restaurante Banri Kathian</strong>.</p>
<p>Era pouco mais de uma da tarde quando os dois chegaram ao restaurante que fica nos fundos de um hotel. Sentaram-se nas mesas internas, já que do lado externo uma ave, um &#8220;louro&#8221;, parecia ameaçador demais. Eles começaram a comer e só saíram de lá quando já chegava às cinco horas, porque o restaurante ameaçava fechar. Mas, antes disso, no calor da briga com os <em>hashis</em>, com o calor e uma eventual demora na chegada de um refrigerante, os pratos não ficaram vazios; as pequenas porcelanas com molho de soja estavam até a borda. Ainda assim, todo esse tempo depois, houve três tentativas de acabar com a farra gastronômica, quando o garçom perguntava-lhes: “<em>Desejam alguma coisa, porque a cozinha vai fechar?</em>”. A resposta era sempre sim. Mais <em>temakis</em>, rolinhos disso e daquilo, <em>sushis</em>, <em>sashimis</em> e mais <em>guiosás</em> (que tem outro nome, mas ficamos com esse mesmo). As barcarolas de madeira transformaram-se em travessas de louça, essas em pratos extras e até que chegou um pequeno potinho &#8211; o último &#8211; com o derradeiro <em>temaki</em> de salmão. Sim, o Lucio foi o último a comer, justo no ponto em que seu estômago precisava fechar – como a cozinha.</p>
<p>Mais de três horas, rodadas e rodadas de comida fresca que parecia nunca saciar os dois estrangeiros na Liberdade e tudo isso por pouco mais de trinta reais. O dono do restaurante não deve ter gostado muito, teria cobrado o dobro ou, pelo menos, pensaria em duas latinhas de refrigerante a mais para sanar os prejuízos à dispensa de peixes e arroz e para a compensação dos garçons exaustos de tanto leva e traz.</p>
<p>Ao sair do local do crime, ainda tinha espaço para um café em uma galeria; um pouco de papo, mais uma volta pelas lojinhas à caça de presentes para namorada, mãe, irmãs e sobrinho. E antes que cruzassem com algum androide, as duas figuras estranhas voltaram à estação de metrô, mas a Liberdade (pelo menos o restaurante) jamais seria a mesma.</p>
<p><em>O Restaurante Banri Kathian fica na Rua Galvão Bueno, Liberdade (São Paulo/SP), mas não diga que somos nós que indicamos.</em></p>
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		<title>Sem receita</title>
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		<pubDate>Sat, 05 Dec 2009 17:00:19 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Conrad Pichler</dc:creator>
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		<description><![CDATA[“Quem pode saber como se tempera o coração?” Trecho da canção “Sem Receita” de José Miguel Wisnik Às vezes, a vida é como cozinhar em casa, sozinho, para si. Você tem um número limitado de ingredientes, umas panelas velhas e suas duas mãos&#8230; e dali você vai ter que tirar tudo o que pode, todo [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img class="aligncenter size-full wp-image-3455" title="Purê de Letrinhas, por Conrad Pichler" src="http://www.papodegordo.com.br/wp-content/uploads/puredeletrinhas.jpg" alt="Purê de Letrinhas, por Conrad Pichler" /></p>
<p style="text-align: right;"><em>“Quem pode saber como se tempera o coração?”<br />
Trecho da canção “Sem Receita” de José Miguel Wisnik</em></p>
<p>Às vezes, a vida é como cozinhar em casa, sozinho, para si. Você tem um número limitado de ingredientes, umas panelas velhas e suas duas mãos&#8230; e dali você vai ter que tirar tudo o que pode, todo o sabor; tirar todo o insosso e tornar o caldo um saboroso tempero.</p>
<p>O primeiro e o último a se servir do que você fez é você. Limpando o molho precioso com o pão, retirando o sabor da louça que vai ser lavada por você mesmo – o que pareceria a punição pelo desarranjo de ser sozinho pode ser um exercício de contínua humildade, uma reverência a si mesmo, um “obrigado, minhas duas mãos”.</p>
<p>Ultimamente, com a grana curta, tenho cozinhado muito em casa, achando formas de ser criativo com os mesmos ingredientes de sempre, alguns temperos e especiarias. E pimenta. Experimentei, dia desses, um receita: ligar meu rádio alto e fazer macarrão com <em>curry</em> para acompanhar um frango assado (mineirinho: alho, cebola, cheiro verde, sal e pimenta); foi o encontro de dois mundos exóticos, que mal conversavam, mas falavam muito. O tanto de todos os sabores de uma vez. E o som alto dava a tudo um tom festivo.</p>
<p>Vi que era hora de me meter naquela conversa, decifrar o que vinha de cada um dos lados, entender o que cada um dos sabores entregava uns aos outros. Mas entendi que isso seria impróprio, precisava temperar a ação, encontrar o contraponto, a contra-voz do ruído, o tempero: silêncio, arbitrariamente necessário.</p>
<p>Fui à sala, abri a janela e escutei a rua. Respirei fundo a noite. Como quem foge no meio de uma festa para ouvir o coração pulsar dentro do peito. “Quem pode saber como se tempera o coração?”. No meio do movimento, da multidão e de tudo o mais, como se encontra silêncio, solidão e singularidade? Como se temperam essas sensações?</p>
<p>Respirar fundo, ouvir a rua e pulsação.</p>
<p>Às vezes, viver é como cozinhar para si. Colocar temperos novos, ruidosos, estridentes e um pouco de sal no prato mais comum, aquele conhecido pela casa, servir em uma sem-mesa estrutura precária de comer. E saborear pedindo abrigo em um silêncio. Mas, não se esqueça: lave os pratos de hoje e do dia anterior.</p>
<p>Ao voltar, coloquei sobre o prato uma porção do macarrão cor de açafrão, um pouco do frango avermelhado do calor do forno. E comi silencioso, como quem faz oração para São Sebastião.</p>
<p><em>Essa coluna não tem receita, use você mesmo os seus ingredientes e temperos – pitadas de especiarias –, faça seu novo prato e coma em silêncio.</em></p>
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		<title>Especial: Bicho da Goiaba</title>
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		<pubDate>Sat, 17 Oct 2009 18:00:21 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Conrad Pichler</dc:creator>
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		<description><![CDATA[A alimentação infantil preocupa todos os níveis da sociedade. Não raro vemos na TV reportagens falando sobre o assunto, mostram-se mães preocupadas servindo as lancheiras infantis (decoradas com seus personagens preferidos): pão integral com fatias de peito de peru, uma fruta da estação, uma garrafinha de suco natural – de preferência sem açúcar ou uma [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img class="aligncenter size-full wp-image-3455" title="Purê de Letrinhas, por Conrad Pichler" src="http://www.papodegordo.com.br/wp-content/uploads/puredeletrinhas.jpg" alt="Purê de Letrinhas, por Conrad Pichler" /></p>
<p>A alimentação infantil preocupa todos os níveis da sociedade. Não raro vemos na TV reportagens falando sobre o assunto, mostram-se mães preocupadas servindo as lancheiras infantis (decoradas com seus personagens preferidos): pão integral com fatias de peito de peru, uma fruta da estação, uma garrafinha de suco natural – de preferência sem açúcar ou uma colherzinha de adoçante para evitar a acidez.</p>
<p>A criança vai para escola e divide o lanchinho com os amigos: ganha em troca de uma mordida no lanche, uma bisnaguinha doce recheada com creme de baunilha; por um gole de suco, um tanto do iogurte ou refrigerante do amigo; por um pedaço da fruta um ou dois quadradinhos de chocolate.</p>
<p>A tão bem balanceada lancheira, que vem decorada com os personagens preferidos dos filhos, transforma-se na canastra da Emília ou na bolsa do Gato Félix, de onde saem as mais diferentes comidinhas que nunca antes haviam passado pela cabeça dos pais preocupados.</p>
<p>Mas, antes que pensem em formar milícias, equipes de ação e forças-tarefa para erradicar a troca de lanches nos intervalos, o intercâmbio lancheira-lancheira, a consumação imprópria de alimentos no ambiente escolar, é preciso perceber como seria o oposto, onde as trocas, se são permitidas, não são possíveis, onde só é possível escolher dentre o mesmo, o igual. E não é preciso recorrer à imaginação ou ao escapismo dos personagens que decoram as lancheiras preferidas das crianças.</p>
<p><span class="bbused">Nas</span> escolas públicas, as crianças são alimentadas pelo Estado, em São Paulo, as prefeituras recebem fomento da União e do governo estadual para comprar os alimentos e pagar profissionais para prepará-los nas horas adequadas; cada período tem seu horário de intervalo, geralmente na hora média entre a entrada e a saída, que é chamado perspicazmente de “hora da merenda”.</p>
<p>Em qualquer época do ano, uma visita a uma escola pública vai revelar a estratégia interessante e muitíssimo bem sacada, por conta de sua economia e exatidão matemática, preparam-se logo cedo quatro grandes caldeirões (de 30 ou 50 litros, cada um para um dos períodos de aula) de arroz-doce (contém arroz, leite em pó hidratado com água filtrada, açúcar e canela). Assim que o sinal do primeiro intervalo soa como uma sirene das antigas fábricas do Brás ou como os avisos antiaéreos da Segunda Guerra, os pratos e talheres de plástico deverão estar preparados, para receber, direto do caldeirão quente, uma quantidade definida por uma grande concha de alumínio, de arroz-doce.</p>
<p>Como já havíamos antecipado, geralmente não ocorrem trocas, nem mesmo intercâmbios, nem os pais precisam se preocupar se os filhos estão se alimentando de algo que eles não pensaram anteriormente. Mesmo porque é incerto saber qual será o prato do dia até chegada a hora, à boca da cozinha da escola, dentre as variantes dispostas para evitar a fadiga alimentar: macarrão com salsicha, arroz e frango desfiado, bolachas água-e-sal com suco artificial de qualquer sabor insondável, ou uma grande concha de arroz-doce, talvez duas. Esses são os pratos mais igualitários possíveis que as escolas públicas podem oferecer.</p>
<p>Depois de 8, 9 ou 11 anos de estudos, digamos que as crianças aprendem a praticar esportes, lançando os pratos, ora cheios (“com presente”) ora vazios (“liso”) no meio da fila ou da turba para ver os outros garotos correrem. Uns aprendem a se esconder atrás das escadas de alvenaria (já que mesas de refeitório há muito não existem em algumas escolas públicas) ou aprendem que comer ao lado do grande latão que recolhe os pratos é ter para si um estoque quase ilimitado de boa artilharia.</p>
<p>E, talvez, antes de começarem os jogos, poderá se ouvir esse diálogo:</p>
<p>- Cara, hoje o arroz-doce tá meio ralo, né não?<br />
- Orra, meu&#8230;<br />
- Sabe que tá parecendo?<br />
- Sei não&#8230;<br />
- Leite cheio de&#8230; bichinho da goiaba&#8230;</p>
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		<title>A cozinha da minha casa</title>
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		<pubDate>Sat, 10 Oct 2009 18:00:52 +0000</pubDate>
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		<description><![CDATA[– Quanto tempo? Ah&#8230; deixe-me ver&#8230; uns 20 minutos?&#8230; OK, eu encontro com vocês lá. Abraço! Assim que desligo o celular, olho pelo retrovisor para o banco de trás do táxi e pergunto para minha colega de trabalho se ela gostaria de me acompanhar numa feijoada com alguns amigos&#8230; – &#8230; É uma reportagem especial, [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img class="aligncenter size-full wp-image-3455" title="Purê de Letrinhas, por Conrad Pichler" src="http://www.papodegordo.com.br/wp-content/uploads/puredeletrinhas.jpg" alt="Purê de Letrinhas, por Conrad Pichler" /></p>
<p><em>– Quanto tempo? Ah&#8230; deixe-me ver&#8230; uns 20 minutos?&#8230; OK, eu encontro com vocês lá. Abraço!</em></p>
<p>Assim que desligo o celular, olho pelo retrovisor para o banco de trás do táxi e pergunto para minha colega de trabalho se ela gostaria de me acompanhar numa feijoada com alguns amigos&#8230;</p>
<p><em>– &#8230; É uma reportagem especial, por sorte é no meu prédio, você conhece o Copan?</p>
<p>– Não. Sim.</em></p>
<p>Ela sorri e disfarça.</p>
<p><em>– Conheço o prédio, mas não posso ir, tenho marcado outra coisa.</em></p>
<p>É, eu entendo.</p>
<p><em>– Sim&#8230; entendo&#8230; </em></p>
<p>Melhor é sorrir e mudar de assunto, perguntando alguma coisa banal para o taxista:</p>
<p><em>– Uns 20 minutos até o Copan, né?</p>
<p>– Sim, hoje o dia está calmo.</em></p>
<p>Não, não está. Eu havia acabado de passar por um estresse danado com um curso que levou muito tempo para preparar: pesquisa, produção de uma apostila, apresentação, etc. Por sorte, os ouvintes foram ótimos. Encontrei até o professor de teatro da minha escola lá, o Manoel; foi bom, o conheci melhor.</p>
<p>Depois de algumas horas, tudo tinha acabado e o peso da semana caiu sobre meus ombros. Eu só precisava de&#8230; Foi então que recebi a ligação do <strong>Flavio</strong> (aquele que ameaça me jogar do alto do Copan – mas, quando teve oportunidade, não cumpriu). Ele ia cobrir o Dia do Cliente, uma <a href="http://www.papodegordo.com.br/index.php/2009/09/17/feijoada-pizzaria-copan-relato/" target="_blank">feijoada na Pizzaria Copan</a>, e estaria acompanhado de <strong>Camila</strong>. Era tudo que eu precisava: boa conversa, boa comida e caldinho de feijão.</p>
<p>Como moro num &#8220;kitnet&#8221;, a Pizzaria Copan é quase a cozinha da minha casa. Já jantei lá tantas vezes que perdi as contas. Devo conhecer todo o cardápio de pizzas (tem uma opção interessante de tamanho: prato individual; para quem come sozinho vale a pena). E há pouco tempo eles começaram a servir feijoada de quartas e sábados.</p>
<p>Quando o táxi chegou ao prédio, imaginei que o tempo que levaria guardando minhas coisas no apartamento seria o tempo de <strong>Flavio</strong> e <strong>Camila</strong> chegarem. Mas, na verdade, fiquei esperando um bom tempo ao pé de uma árvore ou à sombra da banca de revistas.</p>
<p>Só conto isso porque foi ótimo: notei quanta gente caminha por essas calçadas do Centro em um sábado, gente totalmente diferente dos engravatados da semana ou dos vultos misteriosos da noite, gente comum: bermuda, boné, óculos escuros e cachorro – menino ou menina, sempre nesse esquema.</p>
<p>Quando encontrei <strong>Flavio</strong> e <strong>Camila</strong>, contei poucos segundos para ouvir a piada:</p>
<p><em>– Tio Conrad está bem vestido&#8230; –</em> disse <strong>Camila</strong>.</p>
<p><em>– É exame?&#8230; de fezes?&#8230; de toque? –</em> atravessou o <strong>Flavio</strong>.</p>
<p>Eu sabia que <strong>Flavio</strong> não resistiria.</p>
<p>Como sempre, as pessoas nos recebem muito bem na Pizzaria. Deixaram a gente escolher o melhor lugar, “o meu lugar”. Enquanto provávamos o caldinho de feijão, <strong>Flavio</strong> bateu um papo com a <strong>Paula Daidone</strong>, que faz a comunicação do negócio.</p>
<p>Logo almoçamos a famigerada feijoada com o devido deleite e silêncio.<br />
<strong>Raimundo</strong>, dono do lugar, sentou para conversar, contou sua história de luta e de vitória e mostrou-se sereno com a repercussão recente do seu negócio na mídia. Não seria diferente, depois de tanto tempo de trabalho árduo, sendo o primeiro a chegar e o último a sair; ele que conhece cada um dos seus funcionários e a maioria dos seus clientes freqüentes.</p>
<p>Justo por isso, ele deve ter estranhado. Eu sempre comi lá, nunca falava muito, aparecer como correspondente do <strong>Papo de Gordo</strong>&#8230; bom, na verdade, o único que trabalhou de verdade foi o <strong>Flavio</strong>, já que eu só comi, conversei com amigos, descansei meu coração e conheci melhor as pessoas que trabalham “na cozinha da minha casa”. Quanto ao fato de <strong>Flavio</strong> só conseguir provar o fantástico pudim de leite depois de eu ter tomado meu café e “palitado meus dentes”?  Eu diria: <em>quem manda ameaçar de jogar pela janela um dos anfitriões?!</em></p>
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		<title>O pior lugar para se tomar um ótimo café</title>
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		<pubDate>Sat, 26 Sep 2009 18:00:02 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Conrad Pichler</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Essa crônica poderia também se chamar “Para onde as HQs recolhidas vão”, já que toda essa história começa com um netbook. Confuso? Sim, a vida é confusa como os corredores de uma galeria na Santa Efigênia que, diferente da rua 25 de Março, que reúne a mais fina classe das sacoleiras do meu Brasil, tem [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img class="aligncenter size-full wp-image-3455" title="Purê de Letrinhas, por Conrad Pichler" src="http://www.papodegordo.com.br/wp-content/uploads/puredeletrinhas.jpg" alt="Purê de Letrinhas, por Conrad Pichler" /></p>
<p>Essa <em>crônica</em> poderia também se chamar “Para onde as HQs recolhidas vão”, já que toda essa história começa com um <em>netbook</em>. Confuso? Sim, a vida é confusa como os corredores de uma galeria na <em>Santa Efigênia</em> que, diferente da <em>rua 25 de Março</em>, que reúne a mais fina classe das <em>sacoleiras</em> do meu Brasil, tem apenas um chamariz: <em>aparelhos eletrônicos</em> contrabandeados de algum país do <em>leste asiático</em>. Ali, os tigres dormem na sombra.</p>
<p>Passei dois dias inteiros entrando e saindo dessas <em>galerias</em>, ajudando um colega de trabalho a comprar seu tão sonhado <em>netbook</em>, o que nos fazia esperar sempre 30 minutos para qualquer coisa: Para trazer o equipamento do estoque, para instalar um programa, para recarregar as tintas. Num desses trinta minutos, saímos para tomar um <em>café</em>, dar uma volta e, como meu amigo ainda não se adequou a Lei Antifumo, ele aproveita para tragar um <em>cigarro</em>.</p>
<p>Entrando e saindo por aquelas <em>ruas</em> e <em>cruzamentos</em>, encontramos uma velha <em>padaria</em>, uma cápsula do tempo, que levou a gente diretamente para o fim dos <em>anos 70</em> ou algum dos primeiros anos da <em>década perdida</em>. Juro que vi um frango assando numa churrasqueira no fundo do lugar, uma beterraba seca no <em>display</em> de doces e quem sabe mais o quê. Sentei e pedi dois <em>cafés</em>, enquanto encostava minha carcaça no compensado do <em>balcão</em>. Eu já estava sem esperanças quando o <em>balconista</em> entregou o <em>açucareiro</em> (não vou comentar o estado dele, prefiro pensar em mulheres n&#8230; deixa para lá).</p>
<p>Para aquela hora da tarde, achei que havia muitas pessoas sentadas no salão da <em>padaria</em>, desesperançados: um tomava <em>cerveja</em> enquanto pesava o cigarro apagado entre os dedos, outro destrinchava um <em>bife com ovo</em>, dois jovens disputando uma partida de palito&#8230; Tinha até meu reflexo no fundo do balcão, meio surpreso, meio enojado, pensando em mulheres n&#8230; er, quer dizer&#8230;</p>
<p>Enfim, o <em>balconista</em> disparou duas xícaras do <em>café</em>, xícaras surpreendentemente brancas, porcelana imaculada, e <em>café</em> preto fumegante como aquele dos comerciais antigos. Eu demorei a adoçar o <em>café</em>, demorei a usar a colherinha para fazer girar o líquido, e demorei muito para entornar a <em>xícara</em>, mas, confesso, foi um dos melhores <em>cafés expressos</em> que já tomei. E foi encontrado no último lugar em que procuraria.</p>
<p>Quando saí, comentei com meu colega: “Café bom, não é?”. Ele respondeu irônico: “Da próxima a gente pede um <em>frango</em>”. Taí, eu toparia!</p>
<p>Agora, se você ainda se lembra da primeira sentença desse texto, vai recordar (ou não) que falei do lugar para onde vão <em>HQs</em> recolhidas. Pois bastou dobrar uma esquina e lá estava eu, diante da <em>Arca Perdida</em>, uma loja fantástica, onde os sonhos dos números perdidos e das edições especiais por meros <em>R$ 2,00</em> tornam-se realidade&#8230; e a única coisa que poderia expressar meu estado de letargia naquele momento era: “<em>Holly Molly</em>, eu preciso de um café!”</p>
<p><em>Não vou citar o nome nem a rua onde tomei o café, porque não quero ninguém pegando tétano naquelas banquetas.</em></p>
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		<title>Estadão 24h</title>
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		<pubDate>Sat, 05 Sep 2009 18:00:04 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Conrad Pichler</dc:creator>
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		<description><![CDATA[A última que escutei nos balcões da vida foi: “Nem Sarney fecha o Estadão”. Claro, o rapaz – provavelmente um repórter de jornal – ironizava o presidente do Senado e elogiava o famoso Restaurante e Lanchonete Estadão, que fica no Viaduto 9 de Julho, pertinho do Metrô Anhangabaú, quase no encontro da Rua Xavier Toledo [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img src="http://www.papodegordo.com.br/wp-content/uploads/puredeletrinhas.jpg" alt="Purê de Letrinhas, por Conrad Pichler" title="Purê de Letrinhas, por Conrad Pichler" class="aligncenter size-full wp-image-3455" /></p>
<p>A última que escutei nos balcões da vida foi: “Nem <em>Sarney</em> fecha o <em>Estadão</em>”. Claro, o rapaz – provavelmente um <em>repórter</em> de jornal – ironizava o presidente do <em>Senado</em> e elogiava o famoso <em>Restaurante e Lanchonete Estadão</em>, que fica no <em>Viaduto 9 de Julho</em>, pertinho do <em>Metrô Anhangabaú</em>, quase no encontro da <em>Rua Xavier Toledo</em> com a <em>Rua da Consolação</em>.</p>
<p>Sim, caro leitor, mais um <em>balcão</em>! Mas pode ficar sossegado; já levantava para uma <em>moça</em> linda sentar onde eu estava. A gente trocou dois olhares; um para eu oferecer o <em>lugar</em>, outro para ela agradecer. Tenho certeza que vou pensar nisso por um bocado de tempo&#8230;</p>
<p>Hoje, eu me servi de um <em>gnocchi</em> recheado de queijo com molho à <em>bolonhesa</em> (se você é <em>caipira</em> como eu e não sabe o que é “guinóche”, pode chamar de <em>nhoque</em> mesmo) e pedi a <em>pimentinha</em> para acompanhar e reforçar o tempero – que é feito para agradar a todos os <em>paladares</em> e precisa de uma pitada disso ou daquilo para ganhar mais corpo.</p>
<p>Mas o que tem uma moça linda a ver com o <em>nhoque</em> recheado e “um restaurante de <em>redação</em>” que nunca fecha? Calma, tudo a seu tempo&#8230;</p>
<p>Estou eu andando pela <em>Rua da Consolação</em>, já pensando no café do <em>Floresta</em> no <em>Edifício Copan</em> (o mesmo do qual o <a href="http://www.twitter.com/FlavioFSoarez" target="_blank">Flavio</a> sempre ameaça me jogar pela <em>janela</em> durante as gravações do <a href="http://www.papodegordo.com.br/index.php/categoria/podcast/" target="_blank">Papo de Gordo</a>)&#8230; Quando eu paro no <em>semáforo</em>, me lembro que tinha ido ao <em>Estadão</em> com meu guarda-chuva (<em>inverno</em> úmido esse, não é?), dou meia volta e vejo, do outro lado da <em>rua</em>, a moça para qual cedi o lugar!</p>
<p>Ela sorri e aponta o <em>guarda-chuva</em>, eu dou um meio riso e alguma parte dentro de mim aponta para o <em>céu</em> agradecendo, não pelo guarda-chuva, claro; quando finalmente atravesso, encontro com ela, mais um <em>sorriso</em> e eu: “Você vai perder seu lugar” (cada lugar é muito concorrido no <em>Estadão</em>, acredite). Ela bem que poderia responder: “Imagina, isso não importa mais, não importa agora”; mas, ela vira e diz: “Meu <em>namorado</em> está guardando o lugar, relaxa”. Eu peguei o guarda-chuva e, enquanto ela se virava e voltava para o interior da <em>lanchonete</em>, acenei um gesto feio e um <em>palavrão</em> para o destino. O <em>garçom</em> – nunca me lembro o nome dele, mas é o mesmo que sempre me atende – disse: “É rapaz, vai chover, mas&#8230; não na sua <em>horta</em>”.</p>
<p>Dei uma espiada para ver quem era o tal <em>namorado</em>. Claro, era o oposto da minha figura e, estranhamente, me lembrei que foi o mesmo <em>rapaz</em> com pinta de <em>repórter</em> que disse: “Nem o <em>Sarney</em> fecha o <em>Estadão</em>”. Se soubesse disso antes, não teria incorporado essa fala na minha <em>crônica</em>; ou, ao menos, teria aproveitado meu lugar mais um pouco, esperado o segundo tempo do jogo do <em>Palmeiras</em> na TV 20 polegadas e, para finalizar, pediria uma <em>sobremesa</em>.</p>
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		<title>&quot;A gosto&quot;</title>
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		<pubDate>Sat, 08 Aug 2009 18:00:22 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Conrad Pichler</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Caminhando pela megalômana cidade de São Paulo, arrumando alguns lugares diferentes para comer, Conrad Pichler observa e conspira, aliás, inspira-se para contar-nos algumas crônicas; a comida é apenas o acompanhamento. Esperamos que você divirta-se (e emocione-se, por quê não) com causos, personagens, cenas do dia-a-dia experimentadas por um de nossos pesos-pesados. Seja sempre bem-vindo. Na [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><em>Caminhando pela megalômana cidade de São Paulo, arrumando alguns lugares diferentes para comer, Conrad Pichler observa e conspira, aliás, inspira-se para contar-nos algumas crônicas; a comida é apenas o acompanhamento. Esperamos que você divirta-se (e emocione-se, por quê não) com causos, personagens, cenas do dia-a-dia experimentadas por um de nossos pesos-pesados. Seja sempre bem-vindo. Na coluna “Purê de Letrinhas”, o prato principal é a poesia.</em></p>
<p><img src="http://www.papodegordo.com.br/wp-content/uploads/puredeletrinhas.jpg" alt="Purê de Letrinhas, por Conrad Pichler" title="Purê de Letrinhas, por Conrad Pichler" class="aligncenter size-full wp-image-3455" /></p>
<p>“O que vai comer hoje?”, pergunta, “Oi, Seu Luís, eu ainda estou escolhendo” é o que eu sempre respondo, “Pode escolher, não tem pressa&#8230;”, diz esse senhor <em>português</em> enquanto me serve o <em>pãozinho</em>, azeite e sal, a minha <em>entrada</em>, saboreados sem pressa, como tudo o que me acontece em volta.</p>
<p>Esse é um típico restaurante sujinho ou pé-sujo de <em>São Paulo</em>; eu acho até que é dos mais típicos: balcão, banquetas fixas ao redor, uma espécie de coletivo que come, foi isso que os italianos <em>anarquistas</em> trouxeram para cidade em meados do <em>século XIX</em>. E ficar com a bunda quadrada, uma perna formigante e a outra dormente faz parte da diversão de ir comer um <em>bacalhau</em> no <em>Seu Luís</em>.</p>
<p>Sexta-feira é dia de <em>bacalhau</em>. O lugar enche rápido e fica assim toda tarde, eu mesmo esperei por dez minutos para sentar e levei mais alguns para achar uma posição confortável no <em>banquinho</em> de frente com o balcão. Tempo suficiente para ver aquele mesmo engravatado de toda semana, sentado adiante, o homem que ajusta os <em>óculos</em>, coça o cavanhaque, enquanto <em>palita os dentes</em>. O mundo não tem mistérios no balcão coletivo: o engravatado saca uma foto e mostra ao <em>Seu Luís</em>, é o neto que vive na <em>França</em>, “Ele recebeu o caminhãozinho, olha que bonito”; ele fala do caminhão ou do neto? O <em>Seu Luís</em>, além de cuidar de uma pequena adega sob sua casa (“Fui eu quem construiu, tem muito vinho bom”, me disse), preparar o <em>arroz-doce</em> (com um ingrediente especial que ele me contou) e o tempero do <em>bacalhau</em>, Seu Luís faz <em>caminhõezinhos de brinquedo</em> com timidez e seriedade.</p>
<p>Esse caminhãozinho me deixa entretido, carregando os dois senhores de cabelos grisalhos falando sobre <em>netos</em>, filhos, <em>tempo</em>; tudo em três minutos. Eu revisito meu <em>avô</em> em <em>Ferraz</em>, nesse instante de memória. O senhor engravatado chora um pouco, balançando o copo de <em>vinho</em>, recitando, enquanto escreve uma dedicatória em francês no verso da fotografia. <em>Seu Luís</em> diz que vale mais isso do que muita coisa, aquela foto, a dedicatória, algumas lágrimas e memória são mais caras do que o pagamento pelo <em>brinquedo</em>. A foto é guardada junto à foto da primeira turma do <em>Restaurante Ita</em>, de 1957, pregada na cruz de malta dos ladrilhos. O engravatado sai abanando o braço. <em>Seu Luís</em> para um instante&#8230;</p>
<p>Mas, alguém do lado de cá do balcão pediu um suco médio de <em>laranja</em>, no momento exato que <em>Seu Luís</em> precisava chorar um pouco, ele se afasta, fica ali atrás da pilastra, enxugando os olhos, enquanto o <em>Fabinho</em> finge que não vê e espreme as laranjas. Acho que todo mundo finge que não vê, faz parte de um exercício coletivo para manter a <em>dignidade</em> antiquíssima daquele senhor <em>português</em>.</p>
<p><em>Seu João</em>, o irmão extrovertido do Luís, faz um sinal de ombro, para eu não ficar reparando tanto na timidez severa do irmão; enquanto distraio, ele sorri para uma <em>morena</em> linda, ela também sempre está aqui, sempre ganha uma bala e duas palavras furtivas do <em>Seu João</em>.</p>
<p>Pelo que vejo aqui de três em três minutos, esses dois irmãos portugueses adoraram esse trabalho, ainda que reclamem sempre disso ou daquilo. Cada <em>prato feito</em>, das dezenas de opções dependuradas na parede, tem muito “gosto”, tal e qual o <em>cardápio</em> recitado: “Bacalhau são de três tipos <em>a gosto</em>, ao forno (aquele com molho a gosto), à portuguesa e <em>Gomes de Sá</em>”, “Como é esse último?”, “Aquele desfiado, que você rega com azeite a gosto por cima”.</p>
<p>Sexta-feira é dia de <em>bacalhau</em> no Seu Luís, são três tipos a gosto. Pode escolher, não tem pressa.</p>
<p><em>Se você está ou um dia estiver em São Paulo, visite o mais paulistano dos restaurantes de balcão, o <strong>Ita</strong> fica na <strong>Rua do Boticário</strong>, ao lado do <strong>Largo Paissandu</strong>.</em></p>
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