Medicina ortomolecular: verdade ou charlatanismo?

Vinicius Tapioca
@DrTapioca

26/03/2010 - 11 COMENTÁRIOS

Seu Dotô!

Há vários anos a busca por terapias alternativas (que não envolvam drogas ou procedimentos invasivos) e os chamados “tratamentos naturais” têm crescido e se variado bastante. Uma dessas terapias recentemente voltou ao foco devido a uma reportagem no Fantástico exibida em 21 de março de 2010. Mas o que realmente é medicina ortomolecular e o que ela prega?

A história da medicina ortomolecular vem desde a década de 1960, quando Linus Pauling avaliou os dados de um trabalho científico do psiquiatra Abraham Hoffer, que conseguiu diminuir o tempo de internação de esquizofrênicos com o uso de doses elevadas de vitamina B3. Daí, iniciou-se uma série de especulações sobre a ação de megadoses de vitamina nas doenças e sobre a saúde do indivíduo. Em 1968, baseado nos estudos de Hoffer, Pauling (graças a seu prestígio) publicou na revista Science um artigo chamado “Psiquiatria Ortomolecular”, surgindo assim o nome ainda utilizado até hoje e que significa, segundo o próprio Pauling, “molécula certa no lugar certo” (ORTO = certo).

Linus Pauling foi um gênio, um dos maiores químicos do último século. Ele ganhou dois prêmios Nobel, um de Química, pelo seu trabalho explicando a natureza das ligações químicas, e outro da Paz, pela sua luta contra o uso da energia nuclear para fins bélicos. Nenhum deles foi dado pela sua fixação por vitaminas ou por trabalhos no campo da medicina ortomolecular, então, que me desculpe o presidente da Associação Brasileira de Medicina Complementar (ABMC), dr. José de Felippe Jr., quando citou em entrevista ao Fantástico os dois Nobel de Pauling como forma de aprovação da terapia alternativa. Não é porque o cara soube explicar como os átomos se ligavam para formar moléculas que ele vai me dizer que megadoses de vitaminas podem curar Aids e câncer e eu tenho que aceitar isso assim numa boa.

Atualmente o termo “ortomolecular” tem sido substituído por “biomolecular”, segundo a ABMC. Este último é mais justo e sincero, pois significa “a bioquímica aplicada à clínica”. Essa prática se baseia na luta contra os radicais livres, que são basicamente pedaços de moléculas altamente reativos que aceleram o envelhecimento celular e são produzidos em maior quantidade em certas circunstâncias (estresse, por exemplo). Já se sabe que o uso regular de antioxidantes (vitaminas C e E, principalmente) pode diminuir os danos causados pelos radicais livres. O que se questiona é o excesso dessas vitaminas e outros minerais prescritos pelos profissionais adeptos da prática biomolecular. Prega-se também o combate à intoxicação por minerais tóxicos (chumbo, mercúrio, alumínio, etc.), que também provocariam desequilíbrio bioquímico, deteriorando a saúde do indivíduo. A identificação desses minerais, seus excessos e suas carências são diagnosticados pelo contraditório Mineralograma Capilar (tiram alguns fios do seu cabelo e mandam para os EUA pra examinar). Outro exame questionável é a avaliação da gota de sangue, onde se “veria” o radical livre e sua ação maléfica nas células sanguíneas.

O Conselho Federal de Medicina (CFM), em sua resolução 1938/2010, regulariza a prática da terapia ortomolecular/biomolecular, com várias ressalvas: não aprova o uso do mineralograma capilar (estudo do fio de cabelo) nem a análise de gota espessa (teste da “gota de sangue”) como forma de diagnóstico de carência nutricional ou desequilíbrio bioquímico (posto que esses métodos não são comprovados cientificamente); não se deve usar megadoses de vitaminas ou minerais como forma de tratamento; proíbe o uso de EDTA (ácido etilenodiaminotetracético) e procaína (anestésico) como forma de terapia antienvelhecimento, anticâncer, antiarteriosclerose ou voltadas para patologias crônicas degenerativas; entre outras proibições. O que o CFM aprova como terapia ortomolecular/biomolecular é: correção nutricional e de hábitos de vida; reposição medicamentosa das deficiências de nutrientes (quando comprovada sua deficiência); remoção de minerais, quando em excesso (ex.: ferro, cobre), ou de minerais tóxicos (ex.: chumbo, mercúrio, alumínio), agrotóxicos, pesticidas ou aditivos alimentares. E só! O resto, segundo o CFM, é balela e não tem fundamento científico.

Sobre a reportagem do Fantástico, na verdade eu achei muito sensacionalista e extremamente tendenciosa. Procuraram uns médicos charlatões que visivelmente queriam só pegar o dinheiro do paciente, pouco se preocupando com seu bem-estar ou mesmo com a melhora dos sintomas. Um cara que me diz que viu num microscópio óptico um “cristal de colesterol com uma cândida (fungo) em cima” não merece meu respeito nem meu comentário. Era pra paciente se levantar e sair sem nem dizer adeus. Outra diz que viu um micoplasma (tipo de bactéria) no sangue da paciente, explicando que se tratava de um “fungo que aumenta a vontade de comer doce”. Essa no mínimo dormiu com o professor de microbiologia pra não repetir a matéria. Uma terceira viu um radical livre (uma molécula extremamente minúscula) usando um microscópio óptico. Nem se ela usasse a Espada Justiceira e o Olho de Thundera conseguiria ver. Vai ser culhudeira assim lá adiante! São situações esdrúxulas, completamente absurdas, com profissionais selecionados a dedo para dar uma matéria chocante e deixar todo mundo de boca aberta, mas que, com isso, destruiu a imagem da terapia ortomolecular/biomolecular.

Vamos usar um paralelo: Há um caso verídico de um profissional médico, ultrassonografista (não sou eu, viu?) que, quando o paciente chega meio tristonho, reclamando da vida, com a moral baixa, ele passa o transdutor na cabeça do pobre coitado e diz que está vendo “a depressão crescendo dentro da cabeça do cidadão”. Fale sério, se o Fantástico coloca uma reportagem dessas no ar, no outro dia todo mundo ia dizer que ultrassom é charlatanismo, que nenhum profissional dessa área prestava, que era tudo trambiqueiro e por aí vai.

O que eu acho é o seguinte: profissional ruim tem em toda parte e não podemos generalizar. Não é por causa de umas maçãs podres que vamos jogar fora todo o saco. Confesso que eu não acredito na eficácia da terapia ortomolecular/biomolecular. Na verdade, acho que tá mais pra modismo . Os trabalhos apresentados sobre essa prática são geralmente baseados em intuições e deduções forçadas, sendo que nada está muito bem fundamentado do ponto de vista científico. Mas isso é minha opinião e ninguém é obrigado a concordar, assim como eu não concordo com essa caça às bruxas que estão criando. Se for no intuito de trazer uma melhora do quadro clínico do paciente e não prejudicar sua saúde de forma alguma, então por mim tá na boa! Você acredita? Leu sobre o assunto e acha que é bom pra você? É seu direito, vai nessa! Mas lembre-se sempre de procurar um profissional sério e competente, seja para ortomolecular/biomolecular, homeopatia, alopatia, acupuntura, etc.

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11 comentários sobre “Medicina ortomolecular: verdade ou charlatanismo?”

  1. Bom, eu estou tendo resultados bons unindo ortomolecular com acupuntura.
    Mas não houve nenhum extremo por parte da nutricionista até agora: apenas estou tomando proteina e lactobacilos, o que todos já sabem que ajuda.
    Então acho que depende do profissional mesmo.

  2. Esse "modismo" (medicina orto/biomolecular) já dura mais de 30 anos!.Tem um dito popular cuja "moral" é mais ou menos essa: …não se consegue enganar muitos o tempo todo…Concordo com o articulista quando diz que não se deve julgar a prática biomolecular pelo proceder de alguns ditos especialistas,que possivelmente,espero eu,sejam minoria e que,foram escolhidos a dedo pela produção do programa.Mas a materia serve de alerta para que se tome mais cuidado com a escolha do profissional a quem delegar a importante tarefa de nos auxiliar a manter a saude.
    A medicina biomolecular é apenas uma das muitas formas de cuidar de individuos que percebem a falta de saude seja por que têm dores ou quaisquer outros sintomas.Percebem que já não funcionam mais como antes e desejam retomar o estado de ausencia de percepção de mal estar.
    A alopatia cuida da doença instalada. A maioria das outras propostas passam pela promoção de saude e pela prevenção da doença.Esse o motivo do crescimento do interesse a respeito de outras práticas relacionadas ao binomio saude/doença.
    Mas essa discussão é longa e árdua e deveria ser objeto de analise constante de nossa parte (medicos),formadores de opinião que somos.Vou alem, ao dizer que deveria ser materia obrigatoria (curricular), conhecer a produção de conhecimento na área de saude,ao longo dos milenios até os dias de hoje (medicina baseada em evidencias).
    Ajudaria muitissimo a medicos na dificilima tarefa de cuidar de seus pacientes e a eles (pacientes) a entender os "porquês" dos cuidados e a necessidade de auxiliar o medico na sua função mais nobre e maior: ajudar o individuo a manter sua saude.
    Nossa medicina oficial,hoje,é uma medicina "band-aid":é imprescindivel nas emergencias…mas falha na manutenção da saude.E, ao tentar combater a doença cronica,provoca em extensão dificil de avaliar,
    excessiva iatrogenia.Quanto mais se falar em formas de cuidar da saude,melhor.
    Esse é um momento crucial de tomada de consciencia na área da saude.Mesmo programas que abordem apenas a superficie (e o "lado obscuro") da problematica da saude,são benvindos e servem de "triggers" para fomentar a discussão a respeito dela.

  3. Carmen Menendez disse:

    Doutor, obrigada pela excelente explicação. Como sempre, oportuna e facil de entender pelos "simples mortais" como eu.
    Já estou esperando o próximo post.
    Bjs

  4. Lá se foi o m disse:

    Sera que sirvo como exemplo? Gastei uma grana com tratamentos ortomoleculares e não perdi nenhuma grama mesmo com as dietas, yogurtes, lactobacilos, etc. Tinha dias que eu suava de fome a noite, pois não podia omer nem beber depois das 18 horas..A medica era otima, super gentil e pasmem!!! Meio gordinha!!!

    Melhor se eu tivesse colocado meu dinheiro na poupança…ou frequentado inumeras aulas de yoga e pilates…

  5. Juliana De Campos disse:

    Matéria excelente, divertida e muito informativa sem deixar a ética de lado! Sou médica também e me identifiquei com cada linha! Parabéns! Sucesso para o blog!

  6. Os fatos:
    1) A paciente chegou ao consultório se intitulando professora e escreve na folha de identificação sua queixa principal de: depressão, queda de cabelos e desânimo.
    2) A seguir entra no consultório e descreve a Síndrome da Fadiga Crônica Clássica
    3) Digo então a hipótese de diagnóstico: Síndrome da Fadiga Crônica
    4) Ela diz: Mas é tão fácil assim? Eu respondo: É fácil para quem sabe.
    5) Durante a consulta de mais de 2 horas ela e o “suposto marido”, um rapaz bonito e bem mais novo, discutiam e se agrediam verbalmente, contudo ambos negaram problemas psiquiátricos neles ou em familiares
    6) Ao final da anamnese percebo que a paciente clinicamente não tinha o que descrevera ao início da consulta e muito menos possuía distúrbio psiquiátrico
    7) Solicitei vários exames para comprovar que a “Professora” não possuía doença desse mundo. Por sinal é um diagnóstico dificílimo “em uma paciente que simula sintomas após treinamento artístico da TV Globo”. Jamais poderia supor que se tratava de uma “jornalista simulando com o aprendizado do elenco da TV Globo” porque existe no mínimo uma relação de ética e confiança entre o paciente e o médico.
    8) Posteriormente vai a minha casa uma equipe me entrevistar sobre o que eu achava da Resolução do Conselho Federal de Medicina. A entrevista durou aproximadamente 40 minutos. Minha esposa é advogada e muito precavida, deixou sobre a mesa um gravador que gravou toda essa segunda entrevista
    9) Editaram as duas gravações realizadas em dias diferentes e modificaram o sentido do que eu disse nos 2 episódios.
    10) O editor chefe do Fantástico já foi notificado extra-judicialmente, evitou receber a notificação das mãos do Oficial do Cartório, que foi recebida por um dos advogados do departamento jurídico da Rede Globo de Televisão. Na notificação expus e documentei o meu pedido de direito de resposta.
    11) Fui pela Rede Globo acusado de ter sido cassado no CREMERJ (em um processo ético que é confidencial e sigiloso), contudo deixaram de mencionar que eu faltei ao julgamento porque eu estava assistindo ao meu pai em coma no CTI do Hospital Barra D’Or e quando fui ao julgamento em Brasília no CFM me declarei sem condições psíquicas de me defender devido à depressão pelo falecimento do meu pai. Sou considerado um médico com boa formação, tanto no Brasil quanto no Exterior, estou com 30 anos de formado e tenho algumas Especialidades Médicas das quais 5 (cinco) estão registradas no Conselho Federal de Medicina e no Conselho Regional de Medicina.
    12) Tenho certeza que essa entrevista foi arranjada e articulada porque é inconcebível que a Rede Globo, o editor chefe do Fantástico, o casal de artistas com a esposa que simulou doença, a equipe que veio fazer a 2ª. reportagem e os editores da entrevista sejam tão mau caráter.

    Dr. Carlos de Carvalho
    CREMERJ 52-370806

  7. O colega médico que deu seu parecer técnico para o FANTÁSTICO dando a "Opinião Médica e Científica (dele)" e não da Sociedade Médica Cientifica Mundial sobre o exame de HLB, cristais de colesterol, câdidas, etc. lamentavelmente NÃO É ESPECIALISTA EM HEMATOLOGIA e possivelmente não é conhecedor de Medicina Ortomolecular. Verifiquem o que eu estou afirmando no site do CREMERJ (Conselho Regional de Medicina do Rio de Janeiro), no site do CFM (Conselho Federal de Medicina) e no site da SBHH (Sociedade Brasileira de Hematologia e Hemoterapia)

  8. Claudia disse:

    Olá a todos

    faço tratamento com o Dr Carlos de carvalho há um ano ,na primeira consulta fiz o exame da gota espessa de sangue,que evidenciou algumas doenças crônicas , eu já tinha diagnóstico dessas doenças dada por outros especialistas,realizei vários exames solicitados pelo Dr Carlos (sangue,USGs,ECO) e então iniciei o tratamento ,apresentei em duas semanas melhoras clínicas e visíveis do tratamento ortomolecular.

    Sou enfermeira,sempre trabalhei no serviço público de saúde ,onde há médicos ótimos e infelizmente como em toda profissão há os médicos ruins ou que não estão bem naquele dia,afinal também são seres humanos e acreditem já vi cada coisa principalmente quando frequentava as emergencias particulares,digo quando frequentava porque há um ano não procuro uma emergência .Gostei muito do tratamento com o Dr Carlos,não gasto rios de dinheiro como as pessoas imaginam,não sei se ele acertou comigo mas o fato é que realmente apresentei muitas melhoras ,emagreci 17 Kgs em 10 meses,minha imunidade melhorou,crises de fibromialgia ? tambem não tive mais,tenho sindrome do tunel do carpo,também melhorou bastante,voltei a dormir melhor,meu ciclo menstual voltou ao normal,mesmo com 32 anos eu já tinha clinica de pré menopausa,q já havia sido tratada com ginecologista,etc

    Enfim ,acho que certos trantornos de saúde,são muito bem corrigidos pelas terapias alternativas,das quais sou adepta e gostaria de passar para vocês que estão lendo este comentário .

    • Viviane disse:

      Boa tarde

      Gostaria de informações sobre esse médico, já que não tenho nenhuma indicação sobre ortomolecular ou biomolecular, e nem sei se a Unimed atende ou se seria somente particular.

      Grata

      Viviane Pereira

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